Uma professora me escreveu pedindo-me que eu lhe
desse algumas dicas sobre como despertar o interesse dos seus alunos sobre a
sua matéria. Sua pergunta brotava do seu sofrimento. Preparava suas aulas como
havia aprendido nas aulas de didática - mas a sua aula não era capaz de seduzir
a imaginação dos seus alunos. Numa situação como essas o mais fácil e o mais
comum é culpar os alunos: eles são indisciplinados, não querem aprender, são
psicologicamente incapazes de concentrar a atenção. Essa professora não culpava
os alunos. Culpava a si mesma. Devia haver algo de errado em suas aulas para
que os alunos não prestassem atenção.
Uma aula é como comida. O professor é o cozinheiro. O aluno é quem vai comer.
Se a criança se recusa a comer pode haver duas explicações. Primeira: a criança
está doente. A doença lhe tira a fome. Quando se obriga a criança a comer
quando ela está sem fome, há sempre o perigo de que ela vomite o que comeu e
acabe por odiar o ato de comer. É assim que muitas crianças acabam por odiar as
escolas. O vômito está para o ato de comer como o esquecimento está para o ato
de aprender. Esquecimento é uma recusa inteligente da inteligência. Segunda: a
comida não é a comida que a criança deseja comer: nabo ralado, jiló cozido,
salada de espinafre... O corpo é um sábio. Etimologicamente a palavra sábio
quer dizer "eu degusto". O corpo não é um porco que come tudo o que
jogam para ele, como se tudo fosse igual. Ele opera com um delicado senso de
discriminação. Algumas coisas ele deseja. Prova. Se são gostosas, ele come com
prazer e quer repetir. Outras não lhe agradam, e ele recusa. Aí eu pergunto:
"O que se deve fazer para que as crianças tenham vontade de tomar sorvete?"
Pergunta boba.
Nunca vi criança que não estivesse com vontade de tomar sorvete. Mas eu não
conheço nenhuma mágica que seja capaz de fazer com que uma criança seja
motivada a comer salada de jiló com nabo. Nabo e jiló não provocam a sua fome.
As crianças têm, naturalmente, um interesse enorme pelo mundo. Os olhinhos
delas ficam deslumbrados com tudo o que vêem. Devoram tudo. Lembro-me da minha
neta de um ano, agachada no gramado encharcado, encantada com uma minhoca que
se mexia. Que coisa fascinante é uma minhoca aos olhos de uma criança que a
vêem pela primeira vez! Tudo é motivo de espanto. Nunca estiveram no mundo.
Tudo é novidade, supresa, provocação à curiosidade.
Visitando uma reserva florestal no Espírito Santo a bióloga encarregada de educação
ambiental me contou que era um prazer trabalhar com as crianças. Não era
necessário nenhum artifício de motivação. As crianças queriam comer tudo o que
viam. Tudo provocava a fome dos seus olhos: insetos, pássaros, ninhos,
cogumelos, cascas de árvores, folhas, bichos, pedras. Alberto Caeiro disse que
foram as crianças que o ensinaram a ver. Disse que a criança que o ensinou a
ver era Jesus Cristo tornado outra vez menino: "A mim ensinou-me tudo. /
Ensinou-me a olhar para as coisas. / Aponta-me todas as coisas que há nas
flores. / Mostra-me como as pedras são engraçadas / Quando a gente as tem na
mão / E olha devagar para elas./
Quando eu era jovem e não sabia que os olhos das crianças eram diferentes dos
olhos dos adultos eu ficava bravo com meus filhos quando a gente viajava. Eu
olhava para fora do carro e ficava deslumbrado com cenários que via: montanhas,
lagos, florestas. Queria que eles gozassem aquela beleza. Mostrava para eles, e
era como se ela não existisse. Eles nem ligavam. E eu ficava com raiva.
"Como podem ser insensíveis a tanta beleza?"
Eu não sabia que os olhos das crianças não tem fome de coisas que estão longe.
Os olhos das crianças têm fome de coisas que estão perto. As crianças querem
pegar aquilo que vêem. Cenários não podem ser pegos com a mão. Quando são bem
pequenas elas olham, pegam, e levam à boca: querem comer, sentir o gosto da
coisa. O bichinho de que gostam é aquele que elas podem acariciar, colocar no
colo: o coelhinho, o cachorrinho, o gatinho. Nunca vi crianças com interesse
especial por peixes em aquários. Peixinhos não podem ser agradados, não podem
ser colocados no colo. E nem por pássaros. A menos que os pássaros possam ser
agradados. Conheço uma menina que tinha como seu bichinho de estimação uma
galinha. Mas a galinha dela era diferente: vinha quando era chamada e gostava
de ser agradada.
Todos os objetos que podem ser pegos com a mão são brinquedos para as crianças.
E por isso elas gostam deles. Estão naturalmente motivadas por eles. Querem
comê-los. Querem conhecê-los. Com sete anos de idade tive a minha primeira
experiência fracassada com a engenharia mecânica. Secretamente desmontei o
relógio de pulso de minha mãe. Infelizmente não consegui juntar as engrenagens
de novo. Com sete anos eu sabia que os objetos são interessantes e que a gente
os conhece não de longe, mas mexendo neles, desmontando e montando.
Para mim esse é um princípio fundamental da aprendizagem: a fome de aprender
acontece na fronteira entre o corpo e o ambiente. As crianças não se interessam
por montanhas, lagos e florestas porque estão longe dos seus braços. Mas têm
prazer em subir em árvores, apanhar frutas, descobrir ninhos, brincar nos
remansos, pescar. As crianças se interessam por objetos com os quais os seus
corpos podem estar em contacto, que podem ser manipulados. Elas não têm um
interesse natural por operações matemáticas abstratas. Mas se estão vendendo
pipas na feira, elas se interessam logo por somar e diminuir para contabilizar
preços e trocos. E que dizer da forma como elas aprendem a falar, coisa mais
assombrosa não existe! Elas não aprendem a falar abstratamente. Aprendem os
nomes dos objetos e das pessoas ao seus redor, os verbos que indicam as
atividades que fazem. Quando a criança diz "mamãe" ela está chamando
para si um objeto querido. A princípio, toda palavra é uma invocação.
Aí elas vão para as escolas. Aí a aprendizagem sai da vida e passa para os
programas. Programas são séries de conhecimentos organizados abstratamente numa
ordem lógica. Mas a ordem dos programas, por terem sido preparados
abstratamente, não segue a ordem da vida. Aparece então o descompasso. O que
elas têm de aprender não é aquilo que o corpo delas quer aprender, pela simples
razão de que a vida não segue programas. Aí surge a pergunta: como motivá-las a
comer nabo e jiló? Vocês podem imaginar como é que se ensinaria uma criança a
falar, seguindo-se um programa? Ela não aprenderia nunca.
Não gosto de laboratórios nas escolas. Sua função não é ensinar ciência. Sua
função é seduzir os pais. Os pais querem sempre o melhor para os seus filhos e
o que é moderno deve ser melhor. Uma escola que tem laboratórios com
aparelhinhos deve ser uma boa escola. Mas os laboratórios, antes que os
estudantes entrem nele, já ensinaram uma coisa fatal para a inteligência científica:
que ciência é algo que acontece dentro daquele espaço. A ciência não começa com
aparelhos. Ela começa com olhos, curiosidade e inteligência.
Sonho com uma escola que tenha a casa de morada da criança como seu
laboratório. A casa é o seu espaço imediato. Ela está cheia de objetos e ações
interessantes. Pensar a casa é pensar o mundo onde a vida de todo dia está
acontecendo. Numa casa não poderia haver um currículo pronto porque a vida é
imprevisível: não segue uma ordem lógica. Os saberes prontos ficariam guardados
num lugar, como as ferramentas ficam guardadas numa caixa. As ferramentas são
tiradas da caixa quando elas são necessárias para resolver problemas. Assim são
os saberes: ferramentas. Ninguém aprende ferramenta para aprender ferramenta.
O sentido da ferramenta é o seu uso na prática. O sentido de um saber é o seu
uso na prática. Se não pode ser usado não tem sentido. Deve ser jogado fora.
E por falar nisso, a palavra "dígrafo" que todas as crianças têm de
aprender, serve para que? Assim são os nossos programas, cheios de
"dígrafos" sem sentido... Por isso as crianças não aprendem.